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A interferência do animismo na Codificação Espírita

Enviado por on 18/06/2015 – 22:49
Influência do Animismo

Continuamos a publicação do livro “Kardec (em Espírito) corrige O Livro dos Espíritos“. No capítulo 5, vamos entender que o animismo, ainda pouco estudado e compreendido, é uma característica comum à mediunidade. E que precisamos entender sua interferência nas comunicações para buscar a essência dos ensinamentos dos Espíritos, até mesmo na Codificação.

CAPÍTULO 5
(leia os capítulos anteriores)

27. Ora, mas se Espíritos considerados sábios é que ditaram as obras da Codificação, como houve esse tipo de interferência?
a) Allan Kardec escreveu boa parte do que se lê na Codificação Espírita. Além disso, o animismo dos médiuns que davam as respostas dos Espíritos às perguntas de Kardec também interferiu;
b) O animismo, ainda pouco estudado e compreendido, é uma característica comum à mediunidade;
c) Há médiuns e tipos de mediunidade mais ou menos passíveis de animismo;
d) De qualquer forma, em todas as comunicações ocorre a transmissão do pensamento do Espírito para o médium, que então transforma este pensamento em palavra;
e) Por isso é que, com o estudo e a reforma íntima, um bom médium pode sempre “melhorar” seu animismo, mas nunca se livrar dele;
f) Sem animismo não há mediunidade, já que o médium é sempre o tradutor do pensamento do espírito comunicante.

28. Quer dizer que o médium não fala exatamente o que o Espírito diz?
a) O médium, na imensa maioria das vezes, transmite a ideia do Espírito com as próprias palavras;
b) Peça a várias pessoas para traduzirem um mesmo texto do inglês para o português e você terá provavelmente várias frases diferentes, a partir de um mesmo significado;
c) A comunicação mediúnica, portanto, pode ser definida como a tradução do pensamento de um Espírito (na maioria das vezes) em palavra falada ou escrita;
d) Isso pode ser confirmado na própria Codificação. No capítulo 19 de “O Livro dos Médiuns”, item 6, Kardec pergunta aos Espíritos: “O Espírito comunicante transmite diretamente o seu pensamento ou tem como intermediário o Espírito do médium?” Ao que respondem os Espíritos:

“O Espírito do médium é o intérprete, porque está ligado ao corpo que serve para a comunicação e porque é necessária essa cadeia entre vós e os Espíritos comunicantes, como é necessário um fio elétrico para transmitir uma notícia à distância, e na ponta do fio uma pessoa inteligente que a receba e comunique. (Nota de Herculano Pires — O papel do médium nas comunicações é sempre ativo. Seja o médium consciente, semiconsciente, intuitivo ou mecânico, dele sempre depende a transmissão e sua pureza. Essa condição explicaria muitas dificuldades que os observadores apressados atribuem a intuitos de mistificação, caso tivessem a prudência cientifica necessária para uma análise mais profunda do problema mediúnico. A mediunidade, como se vê, é mais complexa e sutil do que o supõem os críticos e negadores sistemáticos.)”

e) Os capítulos 19 e 27 de “O Livro dos Médiuns” trazem informações muito esclarecedoras sobre a mediunidade e que podem ajudar ainda mais a compreender o quanto a própria Codificação teve influência da cultura da época por causa do animismo.

29. E nas obras de Chico Xavier? Há algo sobre o animismo?
a) No livro “Nos Domínios da Mediunidade”, Hilário, colega de André Luiz, diz ao instrutor Áulus que é difícil compreender o que é pensamento seu e o que é pensamento do Espírito, dando a entender que isso dificultaria o processo mediúnico;
b) Durante nossa experiência nos círculos espíritas, temos visto o quanto esta dúvida angustia muitos de nossos irmãos que começam a estudar e a desenvolver sua mediunidade;
c) A resposta de Áulus a Hilário no capítulo 5 (“Assimilação de Correntes Mentais”) ajuda a esclarecer, removendo qualquer receio. Reproduzimos a seguir o diálogo:

“— Não será, porém, tão fácil estabelecer a diferença entre a criação mental que nos pertence daquela que se nos incorpora à cabeça… – ponderou meu colega [Hilário] intrigado.

— Sua afirmativa carece de base – exclamou o Assistente [Áulus]. Em assuntos dessa ordem, é imprescindível muito cuidado no julgar, porque, enquanto afinamos o critério pela craveira terrena, possuímos uma vida mental quase sempre parasitária, de vez que ocultamos a onda de pensamento que nos é própria, para refletir e agir com os preconceitos consagrados ou com a pragmática dos costumes preestabelecidos, que são cristalizações mentais no tempo, ou com as das modas do dia e as opiniões dos afeiçoados que constituem fácil acomodação com o menor esforço. (Grifo nosso) Basta, no entanto, nos afeiçoemos aos exercícios da meditação, ao estudo edificante e ao hábito de discernir para compreendermos onde se nos situa a faixa de pensamento, identificando com nitidez as correntes espirituais que passamos a assimilar.”

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30. Ora, se entendi direito, Áulus quer dizer que na maior parte do tempo repetimos o que ouvimos dizer, e há bem pouco de nossas próprias ideias naquilo que falamos. É isso?
a) O que Áulus chama de “agir com os preconceitos consagrados ou com a pragmática dos costumes preestabelecidos” nada mais é do que o animismo cultural ou animismo coletivo;
b) O Espírito da Verdade (lembra-se dele?), que nos orientou em boa parte deste trabalho, definiu o animismo cultural como o freio caridoso que controla o processo da evolução coletiva. É o respeito à cultura de quem você se dirige, à velocidade evolutiva do planeta, e à de povos específicos também.

Nota: O Espírito da Verdade é o Consolador prometido por Jesus (João 14:15-17). Foi o mentor de Allan Kardec e grande coordenador espiritual da Codificação Espírita; assinou os Prolegômenos de “O Livro dos Espíritos” e uma série de outras comunicações por toda a obra de Kardec, especialmente em “Obras Póstumas”. Andou esquecido pelo movimento Espírita brasileiro, em boa parte pelo mito da “santidade mediúnica”.

31. Quer dizer então que o animismo não é ruim?
a) Claro que não. O que deve ser considerado é o teor moral e a utilidade benéfica da comunicação;
b) Isso o próprio Kardec deixou claro na Codificação;
c) É preciso compreender melhor o processo anímico para não tirarmos conclusões precipitadas, baseadas mais em opiniões que em fatos ou argumentos;
d) Se o animismo é condição natural das comunicações mediúnicas, como vimos em “O Livro dos Médiuns”, é natural que os Espíritos superiores o utilizem em nosso benefício;
e) O animismo cultural, por sua vez, é o processo que permite o respeito ao livre-arbítrio: por mais superior que o Espírito seja, ao respeitar o animismo cultural, ele não força nada;
f) Em vez de prejudicar a comunicação com os Espíritos, esse mecanismo faz com que os pensamentos desses nossos irmãos mais adiantados na evolução possam chegar a nós de forma mais natural: é a luz na medida certa, sem o excesso que poderia cegar, em vez de esclarecer.

32. Então ajude a definir animismo e animismo cultural, por favor.
a) Do ponto de vista individual, o animismo nada mais é do que o repertório ou vocabulário do médium, e a cultura deste, que o Espírito comunicante usa para conseguir transmitir suas ideias;
b) Já o animismo cultural são os preconceitos e costumes estabelecidos pela cultura em que o médium está inserido naquela encarnação;
c) E a cultura depende da família, das instituições que se frequenta, do bairro, da cidade e mesmo do país em que você nasce, além de fatores climáticos e muitos outros;
d) Também é preciso considerar que as diversas culturas de nosso planeta são dinâmicas e evoluem com o tempo;
e) Um breve exemplo: uma cultura normalmente está relacionada a uma língua, e cada língua representa o mundo de formas diferentes;
f) Em português, um Espírito poderia, por exemplo, usar a palavra “saudade”, algo que seria impossível em inglês porque, nesta língua, esta palavra não existe;
g) Isso quer dizer que mesmo as diferenças culturais de menor proporção podem influenciar as comunicações mediúnicas;
h) Como vimos, é preciso entender o contexto cultural da época de Kardec para saber que interferências existiram, tanto do próprio Codificador, quanto dos médiuns que o ajudaram.
i) Existe ainda outro aspecto importante a ser considerado, que é o fato que toda comunicação mediúnica é uma troca de pensamentos, e por sua vez, o pensamento, é uma linguagem universal.
j) Isto nós temos provado nos trabalhos mediúnicos, quando Espíritos de outras nacionalidades se comunicam: ele pensa em sua língua e o médium traduz em sua língua própria.
k) Ao mesmo tempo o médium serve também de tradutor para o Espírito, pois falamos em nossa língua e o Espírito entende na dele.
l) E aí, a cultura linguística do médium age plenamente.

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33. Do jeito que você está falando, os Espíritos então nunca poderiam trazer ideias novas para nós…
a) O animismo cultural influencia as comunicações, mas pode sim ser superado;
b) Quando é necessário trazer uma ideia nova ou que esteja em desacordo com a opinião do encarnado que traduz seu pensamento, um Espírito superior pode perfeitamente usar de sua ascendência moral para sobrepor o animismo do médium e transmitir sua ideia com mais precisão;
c) E para o médium, reproduzimos a dica que o amigo espiritual Luiz nos deixou:

“Superar 100% do animismo cultural é praticamente impossível. Mas como amenizá-lo? Bastante estudo e humildade. São as duas ferramentas que dão força para vencer a cultura anímica. Criou-se hoje um sistema em que primeiro você precisa se tornar um santo para depois ser médium. Quando é o contrário. O que vai ajudar você a melhorar muito a sua atitude na vida é exatamente a mediunidade. Essa exigência pode gerar um sentimento que leve as pessoas a se afastar dos convites de trabalho que recebem. O trabalho espírita não tem que exigir pessoas preparadas. Ele tem que preparar as pessoas.”

d) É claro que quando um Espírito superior tenta passar a um médium uma ideia que este desconhece (e que pode ainda contrariar seus conhecimentos e cultura) fica mais difícil;
e) Mas é exatamente isso que faz com que o conhecimento seja trazido rigorosamente de acordo com a capacidade de assimilação geral, que é dada pela cultura geral ;
f) É por isso que toda nova revelação tem como base revelações anteriores;
g) O revelador faz um grande preparo sobre o assunto, antes de reencarnar, usando também seus conhecimentos de anteriores reencarnações;
h) Foi por isso que Jesus nos deixou o princípio da Caridade, para avaliarmos se os ensinos que recebemos são bons ou não;
i) E é por isso também que o principal postulado espírita é: “Fora da Caridade não Há Solução;
j) Mas o Espírito da Verdade, por Kardec, nos legou outro roteiro perfeito para avaliar princípios religiosos ou comunicações espirituais, que são os Atributos de Deus, como exposto no primeiro capítulo desta obra;
k) É importante entender também que a influência do animismo, além de respeitar nossos limites de aprendizado, traduz-se em respeito por nosso livre-arbítrio;
l) Tudo isso fez os Espíritos Superiores respeitar os limites e a cultura da época de Kardec, deixando passar ideias que não estavam ensinando e os consequentes erros na Codificação;
m) É por isso também que os ensinos têm que ser passados de maneira gradual, bem como ser respeitado o tempo de assimilação das coletividades;
n) Desta forma, o animismo é o caridoso freio que respeita nossos limites de aprendizado. Ao contrário do que se possa pensar, não se compactua com o engano – respeitam-se os limites.

Nota: No capítulo 14 de “A Caminho da Luz”, A edificação cristã, Emmanuel faz avaliação esclarecedora sobre a influência do Judaísmo no início do cristianismo. “Todos os apóstolos do Mestre haviam saído do teatro humilde de seus gloriosos ensinamentos; mas, se esses pescadores valorosos eram elevados Espíritos em missão, precisamos considerar que eles estavam muito longe da situação de espiritualidade do Mestre, sofrendo as influências do meio a que foram conduzidos. Tão logo se verificou o regresso do Cordeiro às regiões da luz, a comunidade Cristã, de modo geral, começou a sofrer a influência do Judaísmo, e quase todos os núcleos organizados, da doutrina, pretenderam guardar feição aristocrática, em face das novas igrejas e associações que se fundavam nos mais diversos pontos do mundo”. Esta afirmação de Emmanuel com certeza confirma nosso pensamento sobre o animismo e influências de épocas.

34. Como então o animismo influenciou a Codificação Espírita de Allan Kardec?
a) Ora, como Espíritos ainda em evolução, os médiuns de que Allan Kardec se serviu para se comunicar com os Espíritos (e o próprio Codificador) estavam imersos na cultura francesa de meados do século 19;
b) Como vimos, nesta época a França vivia o auge de sua cultura e orgulhosamente se considerava o centro pensante do mundo;
c) Para serem médiuns psicógrafos, os auxiliares de Kardec precisavam ser alfabetizados. Nas escolas, absorveram, portanto, todo este pensamento;
d) Além do eurocentrismo, a mitologia das igrejas (tanto da católica, quanto das protestantes) impregnava as pessoas com a ideia daquele Deus que julga e condena seus filhos;
e) Com isso, há trechos de toda a Codificação Espírita que contrariam os Atributos de Deus, um dos nortes que o próprio Kardec colocou como necessários às religiões sérias;
f) Será que esta contradição desmerece o trabalho de Kardec como um todo? Ou será que precisamos compreender melhor a influência do animismo, para então saber removê-la cuidadosamente, preservando o que há de mais sublime na Doutrina Espírita?

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